Mariana Marques · 4 de agosto de 2026 · 3 min de leitura
Envelhecer não é perder. É continuar a descobrir, criar e encontrar novas formas de estar no mundo.
Quando pensamos no envelhecimento, muitas vezes a primeira imagem que surge está associada às perdas: menos capacidades, mais limitações, mais necessidade de apoio.
Mas trabalhar diariamente com pessoas mais velhas tem-me mostrado uma realidade diferente:
Envelhecer também é continuar a descobrir, criar, aprender e participar.
Tenho clientes que continuam a querer aprender coisas novas.
Experimentam trabalhar o barro, bordar, criar peças e explorar atividades diferentes.
Pessoas que continuam curiosas.
E isto lembra-me de algo essencial: a idade não apaga a vontade de aprender.
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Uma das ideias mais comuns que encontro é a de que uma pessoa idosa "já não vai gostar" de experimentar algo novo.
Que se nunca pintou, nunca irá gostar de pintar.
Que se sempre teve determinados hábitos, não faz sentido apresentar novas possibilidades.
Mas as pessoas continuam a transformar-se ao longo da vida.
O envelhecimento traz uma história construída, memórias e experiências, mas também traz espaço para novas descobertas.
Às vezes, o maior desafio não está na própria pessoa idosa, mas na dificuldade em reconhecer o seu novo eu.
As famílias podem precisar de tempo para perceber que aquela pessoa continua a mudar, a descobrir gostos e a criar novas formas de participar.
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Eu nunca tinha feito isto e agora consigo fazer.
Uma das situações que mais me marcou foi a de uma cliente que experimentou fazer uma sopa de letras pela primeira vez.
Parecia uma atividade simples, mas tornou-se muito mais do que isso.
Ela descobriu uma capacidade que não sabia que tinha.
Ganhou confiança.
Ganhou vontade de participar.
E começou a incentivar as pessoas que chegavam de novo ao nosso espaço.
A sua experiência passou a ser uma mensagem para os outros:
Também conseguem.
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Acredito que as atividades **não devem existir apenas para ocupar tempo.**
Devem ter significado.
Se uma pessoa gosta de pintar todos os dias, essa escolha deve ser valorizada.
Se alguém gosta de jogar dominó, ler o jornal ou simplesmente ouvir música, isso também é uma forma de participação e bem-estar.
O nosso papel enquanto profissionais é incentivar a manutenção das capacidades cognitivas, físicas e sociais.
Mas sem esquecer algo fundamental:
Respeitar a pessoa.
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Mesmo quando existe uma demência, aquilo que a pessoa sente e deseja continua a ser importante.
A condição pode alterar algumas capacidades, mas **não elimina a identidade.**
A pessoa pode ter demência, mas isso não pode invalidar aquilo que sente e quer.
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Nas atividades que dinamizo, sinto que existe uma mistura entre passado e presente.
A música, os filmes do tempo deles e as conversas permitem muitas vezes recuperar memórias antigas.
Mas também criamos momentos novos.
E isso é muito importante.
Mesmo quando algumas memórias se tornam mais difíceis de aceder, a pessoa pode guardar uma experiência e transmitir uma emoção.
Pode dizer à família:
Hoje tivemos música.
Hoje aconteceu algo especial.
Isso mostra-nos que existe uma ligação com o presente.
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Muitas vezes vejo pessoas mais velhas com uma enorme capacidade de liderança e de apoio aos outros.
Pessoas que, através da própria experiência, conseguem ajudar quem está a lidar com mudanças, perdas e desafios do envelhecimento.
Talvez envelhecer não seja deixar de ser quem somos.
Talvez seja aprender novas formas de continuar a ser.
Continuar a existir.
Continuar a pertencer.
Continuar a criar significado.
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Fontes
- **World Health Organization** – *Decade of Healthy Ageing (2021–2030)*
https://www.who.int/initiatives/decade-of-healthy-ageing
- **Kitwood, T. (1997)** – *Dementia Reconsidered: The Person Comes First*
(Base da abordagem centrada na pessoa na demência.)
- Experiência profissional da autora em contexto de gerontologia social e intervenção com pessoas idosas em residência sénior em Lisboa, Portugal.
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